Autora: Erica Gomes Pontes (*)
Cantar... Antes mesmo de pronunciar as primeiras palavras, marcas inscritas num corpo que anseia ser mais do que um turbilhão de ossos e carne houve um tempo em que balbuciávamos pequenas canções. Melodias indecifráveis, impossíveis de receberem qualquer nome. Apenas signos, apenas música. Sons perdidos no tempo. Esquecidos. Adormecidos.
E de que modo indissociável este fazer musical tatuou-se em nossas entranhas humanas. Somos seres essencialmente musicais, pois carregamos um corpo que mais do que palavras, expressa uma sinfonia de gestos e desejos. Diz, o indizível. Traduz o enigma. Labirinto oculto no qual a própria psicologia se debruça na tentativa em clarificar. Afinal não é este o anseio da ciência psicológica, dar voz, som e cor ao mistério humano?
O Mistério. A existência do desconhecido sempre denotou a necessidade do olhar. Somos movidos em direção ao que foge a nossa compreensão. Buscamos métodos, deciframos códigos, reinventamos teorias. Todas, tentativas de se desmembrar o mistério. E quando a verdade se presentifica à nossa frente, deparamo-nos com a certeza do incerto, e com a presença eterna de uma ausência latente.
Somos andarilhos de uma estrada que declaradamente se faz infinita por natureza. E se o caminho a percorrer é longo, porque não o fazermos munidos de cantigas e canções que despertem vida neste corpo já calejado pela andança?
Não é gratuito, portanto, ao vasculharmos a história das civilizações, encontrarmos, em todos os povos antigos, independentemente de traços culturais, a priorização da música enquanto instrumento de expressão de sentimentos e ensinamentos. Já haviam descoberto o mágico poder contido nas estrofes de uma canção.
Canta-se para velar os mortos, e canta-se para celebrar uma nova vida. Canta-se em rituais de agradecimento e canta-se para invocar a proteção dos deuses. Canta-se para se preparar para a guerra e canta-se para glorificar o amor.O som musical desde tempos imemoriais, tem-se mostrado privilegiado recurso simbólico, e fonte inesgotável de prazer.
Prazer que há muito foi usurpado de nossas instituições educacionais. Não é raro encontrarmos discursos provindos de diversas esferas sociais, onde deparamo-nos com “escolares” que ainda não descobriram o prazer no ato de aprender. Gerações inteiras que ainda não puderam significar a aprendizagem como construção enriquecedora não só no que concerne aos conhecimentos formais, transmitidos pelas unidades de ensino, mas sim e principalmente, naquilo em que deveria promover a edificação de sujeitos conscientes, comprometidos com o universo social no qual estão inseridos e, conseqüentemente, seres mais felizes.
A alegria de ensinar e aprender deu lugar à voracidade do rigor dos currículos. Fôrmas de aço que aprisionam a alegria e a impedem de voar em direção a outros horizontes. E assim, a escola tem se transformado numa indústria promissora de marionetes de madeira. Assim como o Pinóquio, personagem inesquecível do mundo infantil temos nosso corpo talhado, violentado por mãos alheias que nos pedem, o inestimável esforço, de domar a alegria e converte-la em confortáveis boas notas no boletim ao final do semestre.
É exatamente por compreender que o espaço escolar deva ir além das avaliações de conteúdos, promoções, recuperações ou repetências anuais, que delego ao fazer musical a possibilidade de reinventar vida dando sentido e forma, num solo tão castigado e infrutífero.
Se naturalmente, a civilização humana utilizou-se da música enquanto instrumento de aprendizagem, porque devemos negar este processo à nossas crianças? É certo que a música tem adentrado, timidamente, as instituições escolares nos últimos tempos. Contudo é considerada como atividade recreativa, própria a ser ministrada na sexta-feira à tarde, quando todos estão muito cansados para aprender de verdade. Não é esta a proposta que vos faço.
Postulo que a vivência musical, experenciada não somente na educação infantil, como é de praxe, mas em todos os segmentos escolares, constitui-se como facilitador de aprendizagem.
Muitos são os questionamentos acerca dos rumos que serão tomados pela educação brasileira para os próximos 10 ou 20 anos. Pergunta-se como se ensina; pergunta-se como se aprende. Discute-se sobre o que, quando e como ensinar. E a cada novo método, a cada nova perspectiva teórica, vemo-nos diante de um cenário desolador. Docentes adoecidos, insatisfeitos em sua vocação de ensinantes e crianças esvaziadas da fome de saber. Fato plausível de observação. Basta investigarmos o aumento considerável no universo psi, de encaminhamentos infantis decorrentes de conflitos experenciados na relação ensino/aprendizagem.
E o verbo, saber que deveria converter-se em carne, em liberdade, termina por corromper e encarcerar a alma. A escola transformou-se em sintoma, em dor, pois se afastou do prazer e da alegria, indispensáveis ao aprender.
É preciso resgatar a cor, o movimento e o lúdico, se desejamos romper com este cenário tempestuoso no qual se encontra a educação. Preencher a escola de pensamentos novos, idéias libertadoras de alegria e corpos que dancem a luz do conhecimento, é o desejo que trago guardado em meu coração. Mas o desejo é sujeito faceiro, nos prega peças para deturpar a si mesmo, manter a obscuridade. Como se houvesse algo em nós que devesse permanecer anonimamente protegido, resguardado. Mas de repente, o silêncio rompe o corpo em forma de canção, e o escondido transcende os muros de pedra da razão imposta, e naquilo que não sei, emerge o que sou. Sou menino descalço, sou pipa no vento. Sou falta do colo e medo do escuro. Sou verso e refrão de melodia a ser composta. Só preciso que me deixem cantar...
“Eu canto porque o instante existe a minha vida está completaNão sou alegre nem sou triste, sou poeta (...)
Sei que canto. E a canção é tudo.Tem sangue eterno a asa ritmada.E um dia sei que estarei mudo: mais nada “.
(Cecília Meireles, 1984).
Referências Bibliográficas
ABERASTURY, Arminda. A Criança e seus Jogos. Porto Alegre: Artes Médicas,1992.
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Cantar... Antes mesmo de pronunciar as primeiras palavras, marcas inscritas num corpo que anseia ser mais do que um turbilhão de ossos e carne houve um tempo em que balbuciávamos pequenas canções. Melodias indecifráveis, impossíveis de receberem qualquer nome. Apenas signos, apenas música. Sons perdidos no tempo. Esquecidos. Adormecidos.E de que modo indissociável este fazer musical tatuou-se em nossas entranhas humanas. Somos seres essencialmente musicais, pois carregamos um corpo que mais do que palavras, expressa uma sinfonia de gestos e desejos. Diz, o indizível. Traduz o enigma. Labirinto oculto no qual a própria psicologia se debruça na tentativa em clarificar. Afinal não é este o anseio da ciência psicológica, dar voz, som e cor ao mistério humano?
O Mistério. A existência do desconhecido sempre denotou a necessidade do olhar. Somos movidos em direção ao que foge a nossa compreensão. Buscamos métodos, deciframos códigos, reinventamos teorias. Todas, tentativas de se desmembrar o mistério. E quando a verdade se presentifica à nossa frente, deparamo-nos com a certeza do incerto, e com a presença eterna de uma ausência latente.
Somos andarilhos de uma estrada que declaradamente se faz infinita por natureza. E se o caminho a percorrer é longo, porque não o fazermos munidos de cantigas e canções que despertem vida neste corpo já calejado pela andança?
Não é gratuito, portanto, ao vasculharmos a história das civilizações, encontrarmos, em todos os povos antigos, independentemente de traços culturais, a priorização da música enquanto instrumento de expressão de sentimentos e ensinamentos. Já haviam descoberto o mágico poder contido nas estrofes de uma canção.
Canta-se para velar os mortos, e canta-se para celebrar uma nova vida. Canta-se em rituais de agradecimento e canta-se para invocar a proteção dos deuses. Canta-se para se preparar para a guerra e canta-se para glorificar o amor.O som musical desde tempos imemoriais, tem-se mostrado privilegiado recurso simbólico, e fonte inesgotável de prazer.
Prazer que há muito foi usurpado de nossas instituições educacionais. Não é raro encontrarmos discursos provindos de diversas esferas sociais, onde deparamo-nos com “escolares” que ainda não descobriram o prazer no ato de aprender. Gerações inteiras que ainda não puderam significar a aprendizagem como construção enriquecedora não só no que concerne aos conhecimentos formais, transmitidos pelas unidades de ensino, mas sim e principalmente, naquilo em que deveria promover a edificação de sujeitos conscientes, comprometidos com o universo social no qual estão inseridos e, conseqüentemente, seres mais felizes.
A alegria de ensinar e aprender deu lugar à voracidade do rigor dos currículos. Fôrmas de aço que aprisionam a alegria e a impedem de voar em direção a outros horizontes. E assim, a escola tem se transformado numa indústria promissora de marionetes de madeira. Assim como o Pinóquio, personagem inesquecível do mundo infantil temos nosso corpo talhado, violentado por mãos alheias que nos pedem, o inestimável esforço, de domar a alegria e converte-la em confortáveis boas notas no boletim ao final do semestre.É exatamente por compreender que o espaço escolar deva ir além das avaliações de conteúdos, promoções, recuperações ou repetências anuais, que delego ao fazer musical a possibilidade de reinventar vida dando sentido e forma, num solo tão castigado e infrutífero.
Se naturalmente, a civilização humana utilizou-se da música enquanto instrumento de aprendizagem, porque devemos negar este processo à nossas crianças? É certo que a música tem adentrado, timidamente, as instituições escolares nos últimos tempos. Contudo é considerada como atividade recreativa, própria a ser ministrada na sexta-feira à tarde, quando todos estão muito cansados para aprender de verdade. Não é esta a proposta que vos faço.
Postulo que a vivência musical, experenciada não somente na educação infantil, como é de praxe, mas em todos os segmentos escolares, constitui-se como facilitador de aprendizagem.
Muitos são os questionamentos acerca dos rumos que serão tomados pela educação brasileira para os próximos 10 ou 20 anos. Pergunta-se como se ensina; pergunta-se como se aprende. Discute-se sobre o que, quando e como ensinar. E a cada novo método, a cada nova perspectiva teórica, vemo-nos diante de um cenário desolador. Docentes adoecidos, insatisfeitos em sua vocação de ensinantes e crianças esvaziadas da fome de saber. Fato plausível de observação. Basta investigarmos o aumento considerável no universo psi, de encaminhamentos infantis decorrentes de conflitos experenciados na relação ensino/aprendizagem.
E o verbo, saber que deveria converter-se em carne, em liberdade, termina por corromper e encarcerar a alma. A escola transformou-se em sintoma, em dor, pois se afastou do prazer e da alegria, indispensáveis ao aprender.
É preciso resgatar a cor, o movimento e o lúdico, se desejamos romper com este cenário tempestuoso no qual se encontra a educação. Preencher a escola de pensamentos novos, idéias libertadoras de alegria e corpos que dancem a luz do conhecimento, é o desejo que trago guardado em meu coração. Mas o desejo é sujeito faceiro, nos prega peças para deturpar a si mesmo, manter a obscuridade. Como se houvesse algo em nós que devesse permanecer anonimamente protegido, resguardado. Mas de repente, o silêncio rompe o corpo em forma de canção, e o escondido transcende os muros de pedra da razão imposta, e naquilo que não sei, emerge o que sou. Sou menino descalço, sou pipa no vento. Sou falta do colo e medo do escuro. Sou verso e refrão de melodia a ser composta. Só preciso que me deixem cantar...
“Eu canto porque o instante existe a minha vida está completaNão sou alegre nem sou triste, sou poeta (...)
Sei que canto. E a canção é tudo.Tem sangue eterno a asa ritmada.E um dia sei que estarei mudo: mais nada “.
(Cecília Meireles, 1984).
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BARROS LARA, Angela M. de. Educação pré-escolar profanando o formal. A formalização da educação pré-escolar, no período de 4 a 6 anos, na cidade de Maringá. Piracicaba: Universidade Metodista de piracicaba. Faculdade de Educação: Piracicaba, Sp 1992. (Dissertação de Mestrado).
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In: FRIEDMANN, A. (org.) O direito de brincar. 3.ed., São Paulo: Scritta, 1996.
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